Em uma terça nada comum, fiz um teste de gravidez por 3 dias de atraso na menstruação.
Fui ao mercado com o Léo e de lá fomos para a casa da Ju. Lá, em videoconferência com Gabriela, descobrimos juntos que eu seria mãe.
Inicialmente eu era apenas desespero e vergonha. Nenhum sentimento além desses habitava em mim. Por milésimos de segundos achei que teria coragem de fazer o que sempre disse que faria. Mas, apesar do meu mundo ter caído sobre a minha cabeça naquele POSITIVO, eu já sabia que não teria coragem.
As palavras de mãe eu tive da Claudinha, que falava como o próprio Deus no meu coração... Me acalmando e me fazendo guardar no coração cada palavra dita e que, naquele momento, ainda não conseguira digerir. Ela acertou em tudo! No que eu estava sentindo, no desespero, na ausência total de rumo e o que mais me tocou: ela me disse para perdoar a minha mãe por qualquer coisa que ela falasse em um primeiro momento. E que independente de qualquer coisa, eu não levasse isso pro meu coração... Que eu soubesse perdoar.
Queria continuar contando da forma mais linda, dizer que a mãe da Gabi também me disse coisas lindas, que eu me senti novamente maternalmente abraçada... Foi uma enxurrada de carinho, consolo e amor, que eu juro que só conseguia agradecer a Deus por ter o amor de alguém que me dissesse tantas coisas lindas. Depois, minha maedrinha, que foi (pra não variar) uma pessoa incrível, que vibrou como um gol de pênalti na final da Copa... Eu espero nunca esquecer do rosto dela de alegria com a notícia e a empolgação com os planos para o futuro... Porque esse netinho ou netinha ia brincar muito com ela. Os pais do Rafa, então... Vibraram muito e ficaram felizes por serem avós... Já tinham certeza que não conheceriam nenhum neto.
Aí eu volto para a Claudinha, em sua imensa sabedoria... Como disse, não consigo esquecer as palavras dela. Principalmente as que me disse para perdoar... Já se passou certo tempo, mas eu ainda não consegui.
Não consegui ainda entender com naturalidade que a minha mãe foi apenas o que eu esperava que ela fosse. Que me julgaria... Não daria nenhum abraço, nenhum apoio, nenhuma palavra de incentivo ou que demonstrasse alegria.
Eu tenho muita vergonha de lembrar daquele dia. E, sinceramente, nem queria escrever sobre ele. Meu pai nada disse, embora depois tenha me procurado e pedido desculpas pelo comportamento dele, que ficou sem reação... Mas, por ele não havia problema algum e eu podia contar com ele... Que ficou feliz com a notícia, no final das contas!
Cara, a minha mãe nunca me falou nada depois desse dia. Nada direcionado a mim como a complexa pergunta: você tá bem? Eu posso te ajudar em alguma coisa? Você tá precisando de mim?
N A D A.
Mas, o tempo foi passando e a cada dia mais eu tinha certeza que isso passaria e ela repensaria e viria falar comigo... Que ela refletiria sobre ter falado de maneira tão grosseira quando eu disse que a gente não estava planejando, mas aconteceu e ela disse: "Claro. Metendo, uma hora ia acontecer. Demorou. Tava esperando o que?". E na hora, eu não soube agir porque só tinha vontade de chorar e sumir. Peguei minhas coisas e apenas fui embora com o Rafael.
Me parte o coração saber que ela manda mensagem pra várias pessoas dizendo estar feliz que vai ser avó e tudo mais...
Mas, pra mim, mais parece vergonha de admitir que ela tem vergonha de mim. E já não deve mandar mensagem é pra eu não ir lá. Pra ninguém me ver e não julgar ela. Às vezes penso que, se dependesse dela, eu iria pra Arábia Saudita esconder minha barriga lá e só voltava quando a criança tivesse 3 anos, já casada... Pra não destruir a família perfeita que ela tem e eu vou desmoralizar.
Sabe, eu penso que sou muito convicta de que sou uma pessoa boa. Cheia de valores e virtudes das quais o fato de ter engravidado do meu noivo não me diminuem. Sou generosa, de coração bom, incapaz de me dar bem se isso sacrificar uma outra pessoa. Sou boa filha, amiga, namorada e nunca dei desgosto pros meus pais...
Nem antes e nem agora. Se ela pensa assim, quem tem desgosto sou eu porque Não nasci pra caber nas expectativas de ninguém, senão eu mesma.
Mas, acho que agora a ficha vai caindo aos poucos, sabe? E eu vou vendo que realmente eu vou passar a minha gestação inteira sem que nos falemos como mãe e filha. Honestamente, eu não consigo fingir que nada aconteceu e mandar mensagem de bom dia pra ela. Ou enviar uma mensagem totalmente aleatória e fingir que tá tudo certo e não lembro de mais nada. Mas, também não vou à casa de ninguém pra falar desaforos.
Olhando aqui pro teto do meu quarto eu só consigo pensar: que orgulho é esse que te afasta da primeira gestação da sua filha??? Como pode você não se importar a ponto de engolir seu orgulho?
Se eu não tivesse tanta certeza que sou uma pessoa boa, juro que me questionaria como filha e ser humano. Que merda de pessoa é essa que a mãe não se importa? O que fizestes pra ela de tão mau?
Hoje faço 2 meses de gestação e talvez esteja mesmo mais sensível ou só agora a ficha tenha caído de que esse momento que era pra ser só luz e alegria, tem uma mágoa que todos os dias até aqui eu pensei que me desfaria. Mas, não consegui.
O perdão é muito difícil. Muito mesmo! Mas, o mais curioso de tudo é que às vezes os mais Cristãos são aqueles que mais precisam de Deus no coração. Parar de ler e repetir e passar a VIVER Seus ensinamentos. Como pode, você que já abortou, não se lembrar que não foi tão ortodoxa também...?
Eu me sinto frustrada, decepcionada, triste e principalmente envergonhada porque eu jamais imaginaria que as coisas aconteceriam assim pra mim... Logo eu, que sempre levo luz às pessoas e tento ao máximo ser empática ao outro. Eu que me anulei por tantos anos pra ser o que eu precisava ser pra eles, por gratidão...
Mas, o que se faz de coração não se cobra...
Ao invés de ter rancor, eu levo isso como aprendizado para a criação da minha criança, que terá uma mãe mais humana que a minha.